[wpdreams_ajaxsearchlite]

Artigo – Cães predadores: ameaça à sustentabilidade da ovinocultura e da caprinocultura brasileiras

Por Espedito Cezário Martins, pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos

Predadores silvestres são os animais nativos da fauna que se alimentam de outros animais, inclusive, domésticos ou de criação. Onça-pintada, onça-parda ou suçuarana, apelidada de “onça-bodeira” no Nordeste brasileiro, são os predadores silvestres de animais domésticos que causam prejuízos aos rebanhos, principalmente com animais jovens e frágeis, como bezerros, potros, porcos, cabras, ovelhas, galinhas, dentre tantos. Por maior que seja a ação desses predadores e os prejuízos causados para os criadores, é irrelevante quando comparada com a ação do cão doméstico, que tem ameaçado a competitividade da ovinocultura e da caprinocultura brasileiras, inclusive desestimulando um número expressivo de criadores dessas espécies, a ponto de alguns produtores abandonarem a atividade por conta da ação desses cães predadores Brasil afora.

Por ser uma espécie doméstica, os cachorros não consomem a carne, sangram a presa e bebem o sangue. Essa ação acontece de forma violentíssima. Os animais agredidos por cachorros famintos, geralmente apresentam muitos ferimentos nas patas, orelhas e focinho.

Na maioria das vezes, a carcaça não é consumida e a pele, matéria prima valiosa é desprezada, fica sem valor comercial. Além do prejuízo econômico direto causado pela morte dos animais atacados, cachorros domésticos podem causar também prejuízos indiretos, na forma de estresse ao rebanho, que deixa de se alimentar adequadamente e, consequentemente, deixa de ganhar peso. Há também aumento de casos de animais natimortos por conta de correria de fêmeas prenhas à procura de refúgio.

Os ataques de cães domésticos aos rebanhos de ovinos e caprinos brasileiros têm se intensificado e vêm se tornando uma grave ameaça à existência e sustentabilidade da atividade nas diversas regiões do país, desestimulando criadores que relatam, infelizmente, o abandono da atividade. A propósito, no mês de julho de 2025, o G1, exibiu uma reportagem de um criador de ovinos sul-rio-grandense que teve 101 animais atacados e mortes por cachorros em menos de um mês. Outra informação veiculada no portal de notícias G1 informa que somente um produtor gaúcho de São Martinho da Serra relatou que acumula prejuízo de cerca de R$ 500 mil reais nos últimos três anos.

O prejuízo causado pelos cães predadores aos rebanhos de caprinos e ovinos é difícil de se quantificar por depender de inúmeros fatores que vão desde a região ao manejo do rebanho. Não existem estimativas oficiais sobre o impacto econômico das perdas causadas por ataques de cães predadores no Brasil. Os dados são muito localizados e a maioria das ocorrências não são documentadas.

Se levarmos em consideração o total dos rebanhos de caprinos e ovinos do Brasil publicados na última Pesquisa Pecuária Municipal (PPM, 2023) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e, de uma forma bem razoável estima-se que 0,5% do rebanho seja atacado por cães predadores, mas essa estatística é desanimadora. Estima-se um prejuízo por volta de R$ 35 milhões de reais por ano para o setor, que pode comprometer sobremaneira a viabilidade da atividade nos campos brasileiros. Essa situação está insustentável a ponto de preocupar toda a sociedade organizada, inclusive o segmento da segurança pública que deve tomar parte na busca de encontrar uma saída para amenizar essa problemática.

Medidas e soluções para resolver essa epidemia que ameaça exterminar a produção de caprinos e ovinos no Brasil precisam de atenção imediata e que não podem ser postergadas. Para tanto, é importante a conscientização de todos os elos da cadeia produtiva, principalmente os tomadores de decisões políticas que precisam readequar as leis existentes de proteção animal, de forma a não penalizar a produção animal e imputar penalidades aos tutores dos cães predadores. 

Face a esse cenário, algumas ações podem contribuir para mitigar ou mesmo resolver o problema de cães predadores, como por exemplo: uso de cães de guarda como alternativa para proteger os rebanhos; monitoramento e prevenção para que a vigilância na propriedade fique atenta, além de remover as carcaças de animais mortos para evitar novos ataques; ações legais para garantir o direito de propriedade dos produtores de modo que se permita que os mesmos possam exigir o apoio de órgãos públicos e das polícias para responsabilizar os tutores de cães que atacam os rebanhos; uso de equipamentos como alarmes que detectam movimentos anormais no rebanho; outros tipos de repentes, alarmes ou sensores para afugentar cães predadores.

Isto posto, urge providências para estancar esse problema que vem dizimando a criação de caprinovinocultura no Brasil. No dia-a-dia, vários produtores vêm relatando que estão abandonando a atividade, devido aos prejuízos que têm tido com o ataque de cães predadores aos seus rebanhos, a ponto de tornar a atividade inviável do ponto de vista econômico. Resolver e/ou mitigar esse problema é uma condição sine qua non para o desenvolvimento sustentável da caprinocultura e da ovinocultura brasileira.

Portanto, é preciso mobilizar a sociedade brasileira ou correremos o risco de perdermos esta alternativa de renda para o já sofrido produtor rural brasileiro. Em tempo, deve-se ressaltar que das 558 microrregiões existentes no Brasil, de acordo com o IBGE, os caprinos estavam presentes em 552 e os ovinos em 547 dessas microrregiões, em 2005. 

Ainda segundo o IBGE, em 2024 existiam no Brasil cerca de 21,9 milhões de cabeças de ovinos e 13,3 milhões de caprinos, sendo que 71% dos ovinos e 96% dos caprinos estão localizados na região Nordeste. Se postergarmos as tomadas de decisão que o caso exige, a economia da região será comprometida e os efeitos no meio rural nordestino serão devastadores.

Fonte: Embrapa Caprinos e Ovinos

Link da postagem original: https://www.embrapa.br/cim-inteligencia-e-mercado-de-caprinos-e-ovinos/busca-de-noticias/-/noticia/115849441/artigo—caes-predadores-ameaca-a–sustentabilidade-da-ovinocultura-e-da-caprinocultura-brasileiras

Gostou? Compartilhe!

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Post mais recentes

  • All Posts
  • AÇÕES EXTENSIONISTAS ANTERIORES
  • AGA-MV/UFRPE
  • BIBLIOTECA
  • COORDENAÇÃO (AGA-MV)
  • COORDENAÇÃO (GEEX-MV)
  • COORDENAÇÃO (LABEX-MV)
  • COORDENAÇÃO (OBEX-MV)
  • COORDENADOR DOCENTE (AGA-MV)
  • COORDENADOR DOCENTE (GEEX-MV)
  • COORDENADOR DOCENTE (LABEX-MV)
  • COORDENADOR GERAL (AGA-MV)
  • COORDENADOR GERAL (GEEX-MV)
  • COORDENADOR GERAL (LABEX-MV)
  • COORDENADOR GERAL (OBEX-MV)
  • COORDENADORES DISCENTES (AGA-MV)
  • COORDENADORES DISCENTES (GEEX-MV)
  • COORDENADORES DISCENTES (LABEX-MV)
  • COORDENADORES DISCENTES (OBEX-MV)
  • COORDENADORES DOCENTES (OBEX-MV)
  • EVENTOS FUTUROS
  • GEEX-MV/UFRPE
  • LABEX-MV/UFRPE
  • LITERATURA
  • OBEX-MV/UFRPE
  • PROCAPI
  • PROGRAMA OBSERVATÓRIO
  • PROJETO APICULTURA (PROCAPI)
  • PROJETO AVICULTURA (PROCAPI)
  • PROJETO CAPRINO (PROCAPI)
  • PROJETO I (PROGRAMA OBSERVATÓRIO)
  • PROJETO II (PROGRAMA OBSERVATÓRIO)
  • PROJETO III (PROGRAMA OBSERVATÓRIO)
  • SOBRE NÓS
  • SOBRE O AGA-MV
  • SOBRE O GEEX-MV
  • SOBRE O OBEX-MV
  • VÍDEOS

Em alta

Post não encontrado

Copyright © 2026 EPE-MV/UFRPE. Todos os direitos reservados.

Copyright © 2025 BrasilNutrido. Todos os direitos reservados.